Unidade
I - Atividade 2
O FENÓMENO DA CIBERCULTURA (I)
Reflexão sobre a Cibercultura de Pierre Lévy: 25 Anos Depois
No seu influente livro Cibercultura (1997), Pierre Lévy, com uma visão quase visionária, abordou as mudanças culturais impulsionadas pelo avanço da internet e das tecnologias digitais. Ele refletiu sobre as transformações que a digitalização traria para a sociedade, antecipando como a conetividade em rede, a descentralização e a personalização impactariam nas nossas formas de comunicação, aprendizagem e compartilhamento de saberes. A ideia de "inteligência colectiva" é central na sua obra: Lévy acredita que o saber é enriquecido pela colaboração entre pessoas interligadas digitalmente, permitindo que o conhecimento seja partilhado de forma ampla e acessível, com o potencial de ultrapassar barreiras físicas e sociais. (Lévy, 1999, p. 130 a 132). (Lévy, 1999, p. 130 a 132).
Mas o que mudou nos 25 anos desde que esta visão foi publicada? Hoje, ao pensar na cibercultura, vemos um panorama complexo, onde as promessas de Lévy coabitam com desafios inesperados. A sua abordagem visionária, contudo, pode ser complementada pelas reflexões de Manuel Castells, que, na sua análise da sociedade em rede (A Era da Informação, 1996-2000), sublinha as assimetrias de poder e os impactos sociais associados à transformação digital.
Elenco três exemplos concretos que ajudam a pensar a cibercultura moderna à luz das ideias de Lévy e, de forma breve, das perspetivas críticas de Castells.
1. Redes Sociais e Inteligência Coletiva

As redes sociais são o exemplo mais visível de como a "inteligência colectiva" proposta por Lévy se materializou. Plataformas como Facebook, X (antigo Twitter) e Instagram permitem uma interação global e instantânea, conectando-nos a um fluxo constante de informação partilhada, sendo que um problema é que no meio dessa pluralidade existe um mar de rumores/desinformação que cria entraves ao diálogo entre perspetivas antagónicas. (Lévy, 1999, p. 27). Porém, enquanto Lévy via estas redes como um espaço de aprendizagem coletiva, Castells alerta para os impactos do poder concentrado nas grandes corporações que controlam estas plataformas. Problemas como a desinformação, a polarização social e os efeitos negativos na saúde mental dos utilizadores desafiam a utopia da partilha aberta e equitativa de conhecimento.
2. Recursos Educativos Abertos (REA)
Os Recursos Educativos Abertos (REA) representam um dos aspetos mais positivos da cibercultura no campo da educação. Plataformas como a Khan Academy, a Coursera e a Wikipedia são exemplos do ideal de partilha de conhecimento defendido por Lévy. Estes recursos são acessíveis gratuitamente e oferecem conteúdos educativos a um público global, promovendo a inclusão e a equidade. No entanto, Castells lembra-nos que as desigualdades no acesso à infraestrutura digital continuam a restringir o impacto democratizador destas iniciativas, sobretudo em regiões menos desenvolvidas.
3. Algoritmos e Inteligência Artificial
Os avanços em inteligência artificial (IA) e algoritmos, que possibilitam a personalização das experiências digitais, refletem o ideal de Lévy de uma cibercultura descentralizada e conectada. Contudo, como Castells alerta, os algoritmos também concentram poder e controlam a informação que consumimos, criando “bolhas informativas” que limitam a diversidade de perspetivas. Este fenómeno desafia a visão de Lévy de um espaço digital aberto e neutro, ao evidenciar como as estruturas económicas e políticas influenciam o ambiente digital.
Conclusão: Uma Cibercultura em Transformação
Revisitar a "Cibercultura" de Pierre Lévy, passados 25 anos, é perceber que as promessas de democratização e inteligência coletiva continuam a inspirar, mas convivem com desafios éticos, sociais e políticos que moldam a nossa sociedade em rede. Castells complementa esta análise ao chamar a atenção para as dinâmicas de poder que permeiam a transformação digital.
Para que o ideal de Lévy se concretize plenamente, será necessário enfrentar as desigualdades e os riscos éticos levantados por Castells, promovendo um equilíbrio entre inovação tecnológica e responsabilidade social. Assim, pensar na cibercultura hoje exige uma visão crítica, capaz de integrar os ideais de conetividade e partilha com um compromisso em garantir um ambiente digital mais justo, inclusivo e ético para todos.
Dado o exposto, é inegável que a cibercultura constitui um fenómeno complexo, em constante evolução, intrinsecamente ligado à tecnologia e ao ciberespaço. Este fenómeno impulsiona mudanças sociais significativas, moldando a maneira como aprendemos, interagimos e vivemos. As teorias de Lévy, com as quais concordo, oferecem uma base consistente para compreender as suas implicações na nossa sociedade.
Algumas pesquisas e que poderão ilustrar os conceitos:
Comentando Pierre Lévy: Cibercultura
Pierre Lévy e a Cibercultura
Pierre Lévy - O que é o virtual?
Pierre Lévy - Inteligência coletiva na prática
Referências Bibliográficas:
Lévy, P. (1999). Cibercultura (C. I. da Costa, Trad.). São Paulo: Editora 34. (Obra original publicada em 1997).
Castells, M. (1996-2000). A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.